quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tortura, torturando, torturado!




"Henrique". Despertei de meu sono, o corpo suado, cansado, gasto. Depois de remexer a noite toda, eu continuava escutando aquela voz clamante em minha mente, quase como um suspiro, um pedido de socorro ou uma simples jura de vingança. Me rendi a deitar-me novamente, mas dessa vez não ousei fechar os olhos, fiquei estático observando o teto mofado de meu quarto, em breves segundos dirigi minha mão à escrivaninha ao lado com certa dificuldade, onde pude encontrar um maço de cigarros barato, acendi um e traguei, senti a fumaça arder da garganta até os pulmões, e como me era boa aquela sensação doentia, bravia.
Somente após ter terminado três seguidos cigarros, até quase não sobrar o filtro, foi que me permiti levantar da cama, me dirigi até ao banheiro em passos pesados, trêmulos de sono, parei em frente ao espelho na pia, fiquei observando as minhas marcas da idade, o que minhas quatro décadas de vida haviam me tirado com a ajuda dela, a bebida. Passei os olhos pela cicatriz em minha testa, me lembrei do acidente, até mesmo ali ela fora minha companheira.

Eu estava bêbado, como de costume, retornando de uma festa, ela estava sóbria, mas eu não a permiti dirigir, meu machismo em si não permitiu. Depois de trocar ásperas palavras as quais nem me lembro mais foi que me rendi ao volante, dirigia tortuosamente pelas ruas estreitas da cidade, não enxerguei o sinal vermelho, na verdade não enxerguei mais nada, apenas ouvi o som tremido de desespero daquela voz soar em meu tímpano "Henrique", e era exatamente o mesmo som que eu passei a ouvir todas aquelas últimas noventa e sete noites em que ela havia partido.

Não conseguia mais sorrir desde então, eu já pouco sorria na época, mas agora eu tinha algo muito mais forte, eu tinha a culpa, o medo, o receio, o pesado de minha alma derramando ressentimentos em meus pés, me fazendo tremer de remorso a cada vez que passo pela nossa sala de estar e vejo na parede pendurado aquele quadro, aquele maldito quadro com aquela maldita foto, onde ela sorria, mas por trás do seu semblante podia-se notar todo o sofrimento que eu sempre a fiz passar.
Com toda a certeza ela estava agora em um lugar melhor, eu finalmente cumpri a ameaça que a fizera tantas vezes de lhe tirar a vida, mesmo sem ter coragem de erguer um só dedo contra ela, eu sempre gritava, e as palavras às vezes ferem mais, foram as minhas atitudes que julgaram sua morte, se eu não vivesse implicando e infeliz com meus costumes, nunca teria me rendido a bebida e sem render-me a tal, não teria me alcoolizado aquela noite e tirado dela o suspirar dos dias.
Agora me torturo por não poder retornar ao passado, tento me lembrar dos nossos melhores momentos, mas depois do “sim” no altar eles não mais existiram, ela conheceu quem eu sempre fui e nunca tive coragem suficiente para mostrar-lhe, não consigo me recordar se quer de uma vez ter tirado dela um riso que fosse verdadeiro, até mesmo o velho gato preto trazia a ela mais felicidades do que eu, de pensar que era linda, cheia de curvas, com muitos anseios. Eu tentei tirar minha própria vida, mas sou tão covarde que nem mesmo isso consigo, eu sou um rato, um rato de esgoto, imundo! Perdido. Vagando sem ambições e aguardando. Até quando? Aguardando que a morte tenha piedade de mim, que o destino me livre dessa penitenciária de ser eu, e me leve embora, me tirando as memórias dessa vida tão sofrida.

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